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7

set

 

Resultado de imagem para dinheiro

 

De garras e dentes rijos

Sobre a mesa de fórmica barata

O trabalho me convida a morrer outra vez por dinheiro

Acenando com membros e mil membros

Eu resisto frivolamente

Ele se encanta com minha indolência

Eu sempre o seduzo

Eu sempre o buleverso

Mas é ele quem me pega nas esquinas do dia e me acocha como se eu fosse

O mais barato michê da Capital

29

ago

Horizonte cerrado* 36

O indefensável é invencível?

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Indefensável. Esta é a melhor palavra para definir o que tem sido o mandato até aqui interino de Michel Temer e também todo o processo que culminará, provavelmente, na destituição definitiva da Presidenta eleita democraticamente Dilma Rousseff. Não há como defender a ação capitaneada pelos setores conservadores de nossa política encrustados na sociedade ou encastelados nos cargos públicos e no mercado.

Não há como defender um governo que, tendo chegado de modo ilegítimo ao poder, tenha realizado tantas ações de desmonte de direitos e se arreganhado com tanta sevícia e subserviência aos donos do dinheiro transnacional e da velha oligarquia política brasileira.

Não há como defender um governo que é apoiado pelas piores forças de conservadorismo da sociedade brasileira. Não há como defender um governo que tenha um conluio tão espúrio com uma mídia venal e vendida.

Estamos assistindo a um processo que, em todos os níveis e sob todos os aspectos, é indefensável. Não há argumentos que sustentem juridicamente e politicamente o afastamento da presidenta eleita. Trata-se de fato de uma ruptura institucional e de um golpe que visa dar o comando do país a setores de nossa política que não conseguem fazer valer sua vontade nas urnas. Não se trata de justiça, o sentimento que guia o golpe é o da vingança. Não se trata de política democrática; é a sem-vergonhice explícita da classe dominante nacional e de seus sabujos.

Ao que parece, estamos condenados ao indefensável, que, para nós, nesse momento, se converteu em aparentemente invencível. Prova isso pantomima no Senado em contraste com a excepcional postura de Dilma em defesa de si e da democracia. Consumado o golpe, provavelmente levaremos alguns anos para recompor o arco de centro-esquerda que criou mais direitos e mais defesas para os socialmente mais vulneráveis nos últimos anos. Não há garantia nenhuma, aliás, de que ele se recomporá algum dia, embora tenhamos de lutar incansavelmente para isso. Tudo dependerá da nossa capacidade de reinventar a resistência ao retrocesso.

Os pactos que sustentaram a Nova República e que realizaram a práxis, em algum nível efetiva, da Constituição Cidadã de 1988 foram por água abaixo. A “Ponte para o Futuro”, um programa de Governo para comprar golpista, afirma, reiteradamente, que a Constituição não cabe no orçamento e que a cartilha neoliberal é o mais adequado para pôr ordem nas contas públicas brasileiras. O assalto aos trabalhadores é claro, feito sem meias palavras.

Desenvolvimento? Justiça fiscal e tributária? Reforma Agrária? Mais saúde e mais educação Pública? Auditoria cidadã da dívida pública? Programas de promoção da cidadania e do exercício republicano das diferenças? Direitos trabalhistas? Nada disso está na tal “Ponte para o Futuro”.

Esta é uma ponte estreita, frágil e brilhante, que não sustenta a passagem da nação inteira para o porvir. Por ela passarão apenas os endinheirados em seus carrões. O povo, se quiser, que atrevesse a nado o mar bravio da história, como costuma acontecer na vida brasileira.

A “Ponte para o futuro” de Temer é, claramente, uma agenda antipovo, antinacional, antidesenvolvimentista, e radicalmente contrária à modernização da nossa democracia. Não há o que defender. Trata-se, pois, de um governo ilegítimo e indefensável, com propostas indefensáveis para o país: propostas que jamais passariam por um crivo eleitoral. O povo vai sofrer, como já está começa a ocorrer.

“Que direito você perdeu hoje?”: eis a frase que caracterizará para as próximas gerações o nefasto período do golpe de 2016. Esta é a lógica do Governo golpista, no seu flerte macabro com as forças do grande capital, da velha política e do Brasil rançoso da família “de bem” de classe média, rancorosa e boçalmente meritocrática. Eles adoram um só Deus, cuja estátua é feita de ódio, individualismo e dinheiro.

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O sentimento dominante neste momento grave do país é o de injustiça, pois, se olhamos para a rua, temos a impressão de que a legenda do “indefensável mas invencível” já se instalou definitivamente na sociedade. Não há como negar que os governos de centro-esquerda erraram nesses anos em que governaram o país. Não há como negar que, para se sustentar no poder, chegaram a realizar aquilo que o PSDB anuncia em sua sigla, mas jamais logrou por em prática, ou seja: o PT foi, na prática a grande, e a possível, realização da social democracia periférica. Quem dera tivesse ousado mexer em estruturas mais profundas da nossa sociedade. Quem dera ousasse romper de algum modo com os alicerces da democracia burguesa. Quem dera ousasse fazer uma economia gestada pelo pensamento, os interesses e o poder popular. Quem dera essa aliança de centro-esquerda se tratasse, como dizem os afoitos criminalizadores da esquerda, de uma “forma do socialismo”.

A simples humanização do capitalismo brasileiro, com uma marca desenvolvimentista e promotora de cidadania, bastou para desrecalcar, desde o princípio da crise econômica global, o ódio contra os de baixo, que receberam (nada mais que) parte da atenção prevista na Constituição. Não há como negar que houve, nesses anos, o velho jogo do fisiologismo, nem há como negar que a relação indecente dos partidos com as empresas se manteve quase idêntica. Mas também não há como negar que a aliança de centro-esquerda no poder fez certamente muito menos falcatruas do que qualquer outra composição à direita, como nos casos de Collor e de FHC.

Não há como negar, também, que uma parte da luta política pelo poder esteve com o objetivo centrado no combate de males centenários do país. Não: a aliança de centro-esquerda não fez mais nem pior do que os outros. Também não fez a revolução que um dia virá. Ela fez, sem dúvida, mais e melhor, com todos os limites impostos pela conjuntura, para os que mais precisavam. Também por isso o golpe é indefensável. Ninguém pode, por qualquer motivo, defender considerar justa a ruptura democrática, apenas porque é contra forças de esquerda que teriam, em tese, agido como todos os outros agem.

A grande fraude, a bruta fraude, que tem sido todo o rito do impedimento, entretanto, tem provado que, mesmo indefensável, a reação conservadora às políticas emancipadoras, nacionalistas e desenvolvimentistas é mesmo invencível. Não conseguiremos, imediatamente, vencer a avalanche de conservadorismo que quer desagregar o tecido social brasileiro através de uma concepção fascista da vida política. Os golpistas vão provavelmente inviabilizar a candidatura de Lula para 2018; Dilma ficará com a razão, será celebrada nacional e internacionalmente pela sua bravura, mas será politicamente inviável; a esquerda será mais perseguida e suas conquistas sempre demonizadas. Afinal, virou senso comum dizer que “quebraram o país”, “acabaram com a Petrobrás”, “instalaram uma quadrilha no poder”. Enquanto um sujeito como Eduardo Cunha estiver livre, nada disso passará de abominável retórica para golpear a democracia.

Um longo processo de reconstrução de unidade da luta das forças de esquerda se fará necessário. A força das mulheres, dos estudantes, dos movimentos sociais tem sido a maior esperança nesse momento. São elas e eles que têm demonstrado maior capacidade de resistência e de esclarecimento diante do golpe. Devem ser essas as forças a capitanear um novo capítulo da luta pelos direitos e pela democracia no Brasil. E a primeira tarefa será acordar a sociedade de seu sonambulismo.

É preciso pensar novas formas de intervenção e novas saídas de aglutinação de potências progressistas na sociedade brasileira. Jogar o jogo com as regras feitas pelo inimigo, inevitavelmente, termina mal, pois ele termina quando o inimigo quer.

A ruptura democrática e institucional está dada. Ela pode, hoje, nos dar condição de entrever saídas diferentes para a crise e para a ilegitimidade. Precisamos impor outras regras para o jogo, precisamos de um novo pacto político à esquerda. É preciso mais coragem. É preciso ser mais radical. Caso contrário, continuaremos vociferando contra uma política que é indefensável, muito embora nos seja imposta como invencível.

Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. É autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009) e organizador do volume de ensaios O Brasil ainda se pensa50 anos de Formação da Literatura Brasileira (Horizonte, 2012). Acaba de lançar o livro de poemas e outros nem tanto assim (7letras, 2015). www.alexandrepilati.com

 



*“Horizonte cerrado” é a expressão que inicia o primeiro verso do soneto de abertura do livro Poesias (1948) do poeta carioca Dante Milano. Sendo microcosmo do poema, a expressão também serve para expor a situação atual de um mundo cujas perspectivas nos aparecem sempre encobertas por nuvens ideológicas cada vez mais intrincadas. O que pode o olhar do poeta, do escritor e do crítico literário diante disso tudo? Esta coluna, inspirada na lição de velhos mestres, quer testar as possibilidades de olhar algo do real detrás da névoa, discutindo literatura, arte, política e pensamento hoje.

 

 

 

 

2

ago
Categoria: NA IMPRENSA

A convite de Maristella Petti, da Universidade de Perugia, Itália, respondi a algumas perguntas sobre literatura, poesia e a conjuntura política brasileira. O resultado foi uma ótima entrevista, pela provocação que as excelentes perguntas feitas por Maristlla fizeram a mim. Gostei muito de pensar e escrever sobre as questões de que ela tratou. Reproduzo abaixo o link para o interessantíssimo site Insula Europea e nos anexos a entrevista em português e em italiano. Toda gratidão a Maristella Petti.

 

Insula Europea

Maristella Petti intervista Alexandre Pilati

Alexandre Pilati è professore di letteratura e ricercatore presso l’Università di Brasilia, capitale del Brasile. Il suo interesse è da sempre volto alla poesia politica, area in cui si è addottorato e di cui è attualmente ricercatore e produttore. Con la sua inarrestabile attività di scrittore, si occupa in primo luogo di poesia, ma anche di saggi, frutto del suo lavoro di ricerca. Questo suo ruolo di ricercatore in un campo tanto umanistico come quello della letteratura è volto non solo a studiare questo oggetto abbattendo barriere geografiche e temporali, ma anche e soprattutto a usare il risultato di questa ricerca come criterio d’analisi della società e della storia contemporanee.

Baixe os arquivos da entrevista:

Potuguês: Entrevista_Insula_Europea

Italiano: Intervista Insula Europea

 

12

jun

 

 

Eletronic poem

 

aferrar-se a essas coisas

que nada valem

que no túmulo

no além

mais do que nós durarão

 

não

não as querem o vermes

 

lutar em vão para postergar a morte

para eternizar o corpo

a juventude

 

apegar-se à física metafísica dos fármacos

o corpo não interroga os ópios de ocasião

vez ou outra apenas teme no vazio gozando

 

e treme o corpo

incorporando

a musa desprovida

de poesia em puro mover

 

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3

jun

Horizonte cerrado* 35

 

As lições e as Lições do Golpe

Só os muito incautos ou os muito mal intencionados não admitem que o que se passa no Brasil, há pelo menos dois anos, é um processo golpista. Desde que o Senado brasileiro aprovou o afastamento da presidenta eleita Dilma Rousseff, vários episódios explicitaram ao país as verdadeiras razões do golpe impingido à democracia nacional. Não vale a pena recapitular aqui tais episódios. Eles são bizarros: de Frota no MEC a Jucá gravado, passando pela figura sinistra de um Gilmar Mendes visitando na calada da noite o interino golpista ou pelo juiz Sérgio Moro, desde o dia 17/04 acometido por uma estranha síndrome de avestruz.

Esses e outros fatos já são largamente conhecidos do público pela repercussão que tiveram nas redes sociais e mesmo na imprensa tradicional. Sabemos todos os ingredientes verdadeiros do movimento que apeou (ao menos temporariamente) Dilma e o PT do poder. De cabeça, é fácil levantar ao menos os principais, que dinamizam a narrativa golpista: a grande pressão do capitalismo transnacional, a decisiva interferência na geopolítica da América Latina protagonizada pelos EUA, a intensa fabricação de consentimento anti-esquerda pelo oligopólio da mídia vendida, o legislativo corrupto e vendido aos interesses mais espúrios de um capitalismo periférico, uma regressão conservadora dos costumes, o desespero de uma máfia política que é composta por ratos que habitam os porões da nova república desde as primeiras eleições diretas depois da ditatura militar, o conjunto significativo de erros e problemas dos governos dirigidos pela coalizão de centro-esquerda nesses últimos anos.

Se esse movimento precisava de prepostos, de vis rábulas do direito pactário, encontrou-os especialmente em dois velhacos do poder brasileiro, representantes do dinheiro grosso que decide os destinos do país, na falta de um plano nacional e popular construído junto com a população. São eles: Michel Temer, um ficha-suja que nem sequer pode se candidatar a uma eleição de vereador, e Eduardo Cunha, nossa melhor expressão tupiniquim de mafioso entranhado no Estado. Eis, pois, os protagonistas do golpe: os endinheirados do país e seus títeres políticos, junto com uma massa irreflexiva de tendência fascista que compõe o exército sonâmbulo da pequena burguesia brasileira, que, mirando-se no exemplo dos ricaços que admira, faz da sua vida uma valsa entre os verbos “consumir” e “odiar”.

Em pinceladas rápidas, temos aí o retrato cômico-trágico de um golpe travestido de “solução” de crise econômica, política e institucional, capitaneada pelos de cima, num clima de república de bananas.

O resultado almejado pelo golpe, pelas ações do Governo ilegítimo e temporário que age como definitivo, é tomar o poder e reconduzir o país de modo cabal rumo ao retrocesso em várias frentes da vida brasileira. Retrocesso econômico: implantação radical da pauta neoliberal, que além de espúria porque vendida aos interesses dos poderosos, é retrógrada pois não aponta para um esquema de reindustrialização que sustente a médio prazo algum crescimento para o país. Retrocesso político: salvação geral e irrestrita dos corruptos que sustentam, na base da negociata semicolonial, uma democracia burguesa arreganhada aos donos do capitalismo brasileiro, que é viciado em dinheiro público, além, é claro, da aposta na insidiosa trama política da nova república. Retrocesso social: também chamado de desagregação social, pautada na máxima do “liberalismo” periférico de que o Estado tem de ser mínimo, mas deve ajudar primeiro os que já têm ajuda, ou seja, nada de cotas, de bolsas, nada de saúde e de educação públicas e de qualidade. Retrocesso humano: basta lembrar o que desejam fazer os adeptos do Escola sem Partido, os que atacam a lei do aborto, os que criminalizam movimentos sociais, as religiões de matriz africana, os que acham que o índio deve ser convertido, apostam no criacionismo e julgam os gays uma aberração da natureza.

Ora, esse é o jeito ilegítimo, violento e conservador de a elite brasileira tentar se recolocar social e politicamente nos quadros de uma transformação que o capitalismo mundial vem sofrendo há alguns anos e à qual podemos chamar de “a mais grave crise sistêmica desde 1929”. As crises reconfiguram posições econômicas, rearticulam forças políticas, transformam e preparam o mundo material para uma nova quadra histórica. Não podemos deixar de considerar isso. Estamos em um novo limiar histórico, em termos locais e em termos globais. O sistema-mundo espreguiça-se para um novo dia de exploração e mais valia. O golpe de Estado perpetrado pela elite econômica brasileira é um arranjo de reposicionamento nessa iminente nova etapa da história. Não podemos perder isso de vista, senão veremos, nós que não lucramos com a crise, ainda mais constrito o nosso lugar nesse alvorecer de nova fase da decadência do capitalismo. Se perdemos essa noção, não conseguimos pensar no pós-capitalismo.

Há para nós tarefas urgentes, imediatas, mas há também tarefas de longo prazo. Resistir ao golpe é nossa tarefa urgente. Denunciar a cada oportunidade esse movimento conservador e ilegítimo é nossa tarefa imediata. Articular o retorno da presidenta eleita ao poder é fundamental agora. Nossas forças precisam estar concentradas nesse compromisso, até porque ele pode nos ajudar a viabilizar uma outra tarefa maior, que é a reunião e a concentração das forças do campo progressista da sociedade. A luta política é uma dimensão da formação humana, ela é um espaço de aprendizado sobre nós e sobre nossos destinos.

 

A luta contra o retrocesso é dos movimentos sociais, dos trabalhadores e das trabalhadoras, dos partidos políticos da esquerda, dos intelectuais, do movimento LGBT, dos indígenas, dos sindicatos, da juventude que ocupa as escolas, dos artistas que ocupam os teatros. A esquerda sempre teve dificuldade de articular setores em divergência dentro do seu espectro vário de propostas teóricas, intenções e práticas. Essa é a primeira dificuldade que precisaremos aprender a superar se quisermos fazer frente ao aguerrido ataque das forças conservadoras ao país que nos diz respeito. Precisamos, com nossas diferenças, saber formular uma alternativa concreta, saber construir um projeto de país popular para responder à crise em que a especulação financeira nos meteu há oito anos. Quem são os inimigos? A resposta a essa pergunta, desde a redemocratização brasileira, jamais esteve tão clara.

Não vejo horizonte possível para uma ação emancipatória de longo prazo, que faça frente ao retrocesso que aceleradamente o Governo Temer propõe sem que consigamos mobilizar (as ruas, as casas, as salas de aula, os locais de trabalho, as redes sociais) em torno de duas causas imediatas: o retorno de Dilma e a proposição de um plebiscito sobre novas eleições, que confira nova legitimidade aos poderes da nossa frágil democracia. Esse processo pode acelerar um pouco nossa resistência ao retrocesso. Para conseguir isso, todavia, precisaremos aprender a reinventar as formas de participação política. E teremos de aprender isso na prática, para já e para depois, sob pena de sermos engolidos por uma longa noite de fascismo neoliberal.

A Nova República se esgotou, ou formularemos com os espoliados pelo neoliberalismo o passo seguinte da ordenação político-social do país, ou veremos, mais uma vez, o poder dos endinheirados comandar movimento do Brasil no rumo da nova quadra do capitalismo.

Fico sempre muito animado com nossa capacidade de organização, de mobilização, nossa criatividade ao protestar, com o humor e a alegria sempre presentes, pois sabemos que quem odeia e faz cara feia não constrói um mundo melhor. O trabalho político cooperativo, horizontal e agregador que gere, entretanto, uma transformação prática e não apenas resistência (o que já é muito, mas não basta) é o desafio que está posto à nossa geração. Se não formos capazes de fazer essa maturidade social que atingimos gerar frutos de intervenção no concreto das relações políticas, dificilmente a próxima geração poderá usar tão bem quanto nós os verbos “resistir” e “transformar”. A multiplicidade de tendências que compõe o campo das esquerdas precisa ser entendida como a riqueza que dá mais força à resistência política. Inventar uma verdadeira “nova política” que as reúna num movimento amplo de construção de uma ideia futura de país será, talvez, a grande lição do Brasil aos golpistas de hoje e de amanhã.

Alexandre Pilati é professor de literatura brasileira da Universidade de Brasília. É autor de A nação drummondiana (7Letras, 2009) e organizador do volume de ensaios O Brasil ainda se pensa50 anos de Formação da Literatura Brasileira (Horizonte, 2012). Acaba de lançar o livro de poemas e outros nem tanto assim (7letras, 2015). www.alexandrepilati.com


*“Horizonte cerrado” é a expressão que inicia o primeiro verso do soneto de abertura do livro Poesias (1948) do poeta carioca Dante Milano. Sendo microcosmo do poema, a expressão também serve para expor a situação atual de um mundo cujas perspectivas nos aparecem sempre encobertas por nuvens ideológicas cada vez mais intrincadas. O que pode o olhar do poeta, do escritor e do crítico literário diante disso tudo? Esta coluna, inspirada na lição de velhos mestres, quer testar as possibilidades de olhar algo do real detrás da névoa, discutindo literatura, arte, política e pensamento hoje.

 

 
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