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  • Alexandre Pilati

“Uma escolha muito difícil” - (leitura breve de a máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe)

Atualizado: 23 de dez. de 2021


Não é que haja assuntos fáceis para a literatura. Há mesmo é tipos diferentes de dificuldades a que se entrega a coragem dos autores. Valter Hugo Mãe, em a máquina de fazer espanhóis (Porto Editora, 2021), encara com coragem dois temas complicados para se tratar literariamente em nossos dias: o fascismo e a velhice. Como fazer literatura sobre o fascismo numa época em que o monstro ressurge e põe as suas milhões de cabeças sem vergonha na rua? Como tratar da velhice numa época em que o paradigma é a juventude e, no limite, um certo infantilismo que pretende jogar para escanteio todo tipo de amadurecimento? No mundo real, é claro, o fascismo político anda de braço dado com o infantilismo midiático. Mais bovinamente seguirão os fascistas quanto menos adultos sejam os cidadãos. Contudo, esse não é o nosso assunto. Quero me ocupar de como a literatura de Mãe aborda esses temas tão nossos e tão estranhamente complexos.


O que dá densidade ao tratamento narrativo desses dois temas em a máquina de fazer espanhóis é precisamente a sua submissão à organicidade conferida pelo princípio formal escolhido pelo autor para estruturar a sequência dos fatos apresentados no romance. Tal organicidade se deve à escolha do ponto de vista narrativo e à situação a partir da qual o personagem narrador conta sua história. Trata-se do velho Antonio Silva, cidadão comum, exemplo da portugalidade pedestre, complexo na sua singeleza de homem equilibrista entre a maldade, a delicadeza, a omissão, a covardia e o arrependimento. Da cama do hospital, a partir daquele que parece ser o último dia de sua vida, o sujeito sem brilho e modesto, barbeiro de profissão, desfia um memorialismo de corte delicado e subjetivista, composto também por delírios e lembranças recentes e mais distantes, da juventude. Sua narrativa, então, vai desvelando, por dentro, a complexidade do envelhecer, de que é exemplo a máxima “ser-se velho é viver contra o corpo”, o qual, inexoravelmente vence a parada.


Ao mesmo tempo delineia-se o retrato do remorso e da culpa, sem tintas carregadas, que revelam o colaboracionismo do Sr. Silva com a ditadura, a verdadeira “máquina de roubar metafísica aos homens”. A personalidade do Sr. Silva, assim, apresta-se ao leitor em modo complexo, o que é próprio do espírito crítico, consistente e sutil do estilo de Mãe, que nos dá uma história, afinal de contas, sobre o mal que mora nos homens bons, inclusive nos que parecem velhinhos benignos. Tudo isso, entretanto, sem uma tese prévia, sem julgamento moral, sem concepções prévias do que seja o caminho direito para se construir a vida social mais justa e humana. Há crítica política, sem cumeeiras de retórica.


Dito isso, ressalto duas das mais fortes impressões que o livro me deixou. A exuberância de estilo, que não deixa nada a dever, por exemplo a um Saramago. Em diversas passagens, aliás, reconheço um certo fantasma saramagueano rondado o asilo Feliz Idade, espaço central da narrativa. Talvez essa impressão também tenha sobrevoado as ideias de Caetano Veloso, que cita Saramago no prefácio da 19ª merecida edição da obra. Outra coisa que chamará talvez a atenção dos leitores é que esse mesmo estilo, cheio de virtudes inegáveis, às vezes leva a ficção de Mãe a alguns desequilíbrios. Certo é que todas as narrativas se alimentam do que é essencial e do que é periférico. No caso de a máquina de fazer espanhóis, o essencial é o discurso do protagonista narrador e o periférico são os tipos humanos com quem ele convive ou conviveu e que compõem a diversidade humana do microcosmo do livro, sejam os do asilo Feliz Idade, seja o universo a que somos remetidos por pessoas com as quais o Sr. Silva conviveu no rememorado tempo da ditadura de Salazar.


Pois bem, no caso do que é essencial, a regularidade é impressionante e esse aspecto dá suficiente lastro literário ao conjunto. Todavia, na construção dos personagens que compõem o âmbito, por assim dizer, periférico, parece haver algum desequilíbrio, que faz certos personagens perderem tipicidade para configurarem-se como elementos mais chapados de episódios de corte anedótico. Passagens sublimes são as do abrigo ao personagem que foge dos “pides” (tiras) da ditadura salazarista e da carta que ludibriosamente o Sr. Silva encaminha à Sra. Marta, fazendo-se passar pelo marido desta. Personagem emblemático desse âmbito sublime é o “Esteves”, que teria sido, até prova em contrário, a inspiração de Fernando Pessoa no poema “Tabacaria”.


Outras passagens e personagens, todavia, concorrendo com estas, não têm o mesmo caráter de intensidade articulada entre, forma, estilo e sentimento. Podemos, entretanto, colocar a verossimilhança dessa irregularidade na conta dos altos e baixos naturais de um narrador que está acamado, à beira da morte, sofrendo, como se diz no livro do perigo da “memória dos peixes”. Seja como for, trata-se de uma nota digna de investigação pelos analistas da obra, que desejem perder tempo com esses detalhes que ocupam os desocupados críticos de literatura.


Enfim, vejo em a máquina de fazer espanhóis, um livro da portugalidade que está encravado no solo brasileiro de hoje. O livro que lemos é indiscutivelmente do nosso tempo, universal no sentido do sistema mundo construído pelo capitalismo até aqui. Sem retórica política, com as ferramentas que fazem da literatura uma complexa dialética da vida, Mãe abre-nos os olhos e os corações: “o fascismo dos bons homens. é o que por aí abunda. já quase não faz mal a ninguém e não é para prejudicar. mas é um sentimento que fica escondido, à boca-fechada, porque sabemos que talvez não devesse existir, mas existe porque o passado, neste sentido, é mais forte do que nós.”


Porque tantas vezes escondido, o “fascismo dos bons homens” transborda das bocas em meio às crises, como aquilo que, fétido, projeta-se das valas e inunda as avenidas. É o “fascismo dos bons homens” que, às vezes, pontua, com o cinismo dos descompromissados, que “há escolhas muito difíceis", repetindo a nossa história de ignomínia e exclusão. Na última vez em que essa expressão foi propalada exaustivamente, estávamos em plena eleição presidencial de 2018 e a maioria dos eleitores brasileiros escolhera “o fascismo dos bons homens”, pois o vírus que infecta os “cidadãos não praticantes” já havia se instalado nos pulmões da nação, a qual, por sua vez, hoje respira por aparelhos. O que este Valter Hugo Mãe está a nos dizer é que, quando se trata de alternativas ao fascismo, nenhuma escolha é muito difícil, caso a sociedade possua boca e linguagem para nomear os nossos próprios fantasmas, operadores da máquina de produzir opressão.


Bem, a literatura nos ajuda a ter boca e a ter linguagem – que saibamos dar nome às nossas escolhas.

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MÃE, Valter Hugo. a máquina de fazer espanhóis. Porto: Porto Editora, 2021. 19ª edição.

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