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  • Alexandre Pilati

Testemunha de tragédias



A poesia de Chantal Castelli é testemunha dos instantes que antecedem as tragédias; investiga de onde elas nascem, percorre as trilhas do perigo, da aflição, do desespero. Tarefa dura, que exige rigor, coragem e atenção ao mundo dos homens.

Sua grandeza vem daí: saber constatar o nervo exposto do sofrimento, que é a chave do universo da alienação - aquilo que "nos esmaga e justifica". A linguagem penetra e revolve a verdade que o olho lírico persegue com espanto.

E o maior espanto estende-se como fio de coerência pelos textos. Não são outros, ou de outros, "os cães de que desistimos". Também são muito nossos, ou somos nós, "os cães de que desisitimos". O título, um achado forte, revive a cada poema do livro em contexto de interrogação.

Será nosso destino trágico comum, neste mundo do qual o livro é um delicado caleidoscópio? A reificação sempre irá nos intimar a desistir, seja capitulando ou lutando? Como é arte dialética, a poesia de Chantal pede outra pergunta: agora sobre como ser capaz de superar o susto desse perigo que nos afeta. A esta se chega através da pequena catarse a que cada poema dá forma.

É a consciência, formalizada nesta poética, de que "nada flui sem impedimento" o convite ao pensamento e ao sentimento do leitor, que irá precisar de desassossego e, no limite, de armar-se da ira que faz transformar (-se). Não haverá beleza maior nem mais abrangente na sociedade do fetichismo.

Assim a obra toca uma urgência, uma necessidade, posta em marcha pela desgraça contemporânea, sobretudo pelo diálogo que estabelece com um curioso conjunto de referências literárias, cujo norte é a negação de qualquer vulgaridade, expletividade ou rotina.

São poemas que gritam em surdina, "como quem negocia uma saída".



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