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  • Alexandre Pilati

Poesia a várias vozes


Na harmoniarpa, instrumento criado por Hector Papelard em 1864, os teclados e cordas são impulsionados por uma tangente de cobre aparada com a pele, criando peculiar sonoridade. Analogicamente, percebe-se o mesmo virtuosismo musical na pauta poética de Alexandre Pilati em Tangente do Cobre. Leitura epidérmica, que remete à sensação sinfônica de um coral de vozes, regido pela força semântica de uma dicção que atravessa variações temáticas e desnuda um universo criativo em que as referências estéticas, a transculturalidade, a memória e o diálogo com outros autores e obras realçam a dimensão intertextual desse conjunto cuja matéria é o mundo fundado na palavra que o rege.


Transitando entre o clássico e o contemporâneo, visitando o erudito, as vanguardas e o popular, a poesia pilatiana não se condiciona a escolas, mas as transcende e se ressignifica em linguagem, identidade e singular pluralidade estilística. Imersa nos sentidos lírico, social, psicológico e político da experiência existencial, essa narrativa se enuncia pelas metáforas, imagens, silêncios e no resgate de certas etimologias. Os signos evidentes da perplexidade de um olhar sintonizado com as demandas desse tempo distópico e arrevesado realizam uma sofisticada tessitura de matiz conceitual, metafísica e profundamente enraizada nos dilemas da contemporaneidade. Reverbera uma mística transgressiva que se flexiona numa poética de catarse e libertação. Se para Rimbaud “há quem diga que é o cobre um clarim que urra”, eis aqui aí o ponto de viragem na escrita do autor: o verbo feito de metal fundente.


Em tempos de tanto engodo, quando um escritor vale mais pelo contexto e não pelo texto, é alvissareira uma poesia que se impõe pelo meticuloso repertório, arte de alta voltagem e impactante eficácia comunicativa.


Ronaldo Cagiano

Lisboa, inverno, 2021

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