Buscar
  • Alexandre Pilati

Pasolini e As Cinzas de Gramsci

Atualizado: 20 de fev.

A Editora C-14 publica pela primeira vez no Brasil uma edição com a tradução integral do livro de poemas de Pier Paolo Pasolini As Cinzas de Gramsci. Leia a seguir um trecho do estudo que escrevi para acompanhar a tradução da obra, que já está em pré-venda no Site da Editora.



"...Observando de modo mais específico a arquitetura da poesia de As cinzas de Gramsci, encontram-se alguns traços constantes que lhe caracterizam a expressão, dando unidade ao conjunto. Vale a pena indicar e discutir, ainda que rapidamente, alguns desses mecanismos literários, a fim de ajudar o leitor a avaliar a estatura estética desses onze poemas. Quem ler As cinzas de Gramsci, observando-o como um todo, observará, em primeiro lugar que os poemas possuem um forte disposição narrativa, que se constrói a partir de uma voz lírica/narrativa bastante bem caracterizada como a de um intelectual/artista comprometido com o pensamento progressista de seu tempo. Esta narratividade dominante, no entanto, não é tirânica; ao contrário, ela é capaz de abrir espaços generosos à descrição, que, em determinados momentos, se converterá em modo textual/poético dominante. Com estas variáveis, é possível montar um esquema básico com os principais vetores estruturais dos textos de As cinzas de Gramsci, a fim de que, depois, no ato mesmo da leitura crítica, seja possível avaliar o peso e a função de cada um deles na peculiaridade estética do livro.


Tal esquema deve considerar, portanto, em primeiro lugar, que há ali uma voz lírica/ narrativa bastante específica e disposta a considerar o presente como matéria poética. Em segundo lugar, deve-se atentar para o fato de que esta voz está disposta a conectar elementos díspares da realidade conferindo-lhes sentido através do discurso poético de tendência descritiva, o qual, por sua vez, proporciona homogeneidade a tais elementos. Mas, se a estética pasoliniana é capaz de dar homogeneidade ao díspar, ao descontínuo, ela não apaga jamais as tensões dialéticas emanadas das contradições que são inerentes ao processo histórico testemunhado pelo autor, e que, exatamente por isso, são o componente fundamental de uma projetiva literária que se poderia chamar de realista.


O poeta parece, então, muito consciente de que o seu trabalho tem como missão ou função comentar criticamente o processo multiforme de evolução da sociedade ao rearranjá-lo em termos estéticos. Tal consciência está bastante conectada com uma famosa afirmação lukácsiana a respeito do modo como o materialismo histórico lida com a apreensão do mundo pelas formas artísticas. Segundo Lukács, “o processo total do desenvolvimento histórico-social só se concretiza em qualquer dos seus momentos como uma intrincada trama de interações.”[1] Em As cinzas de Gramsci os poemas parecem assumir esta missão da arte, ao exporem, na relativa autonomia de sua forma, um reflexo reconstituinte da complexa teia de relações sociais que é capaz de promover o reconhecimento do sentido do progresso histórico.


Observem-se, então, com mais atenção alguns dos componentes dessa multiplicidade. Primeiramente, a disposição básica dos poemas para a narrativa garante a não dissolução do seu tino realista de interpretação da história: um caráter realista que não está, como bem se sabe, na documentação dos fatos do presente, e sim na maneira como a forma estética está à altura dos verdadeiros problemas do presente, sendo deles um reflexo não mecânico. Esse realismo da poética pasoliniana em As cinzas de Gramsci poderá ser, pois, a princípio percebido na maneira como a voz narrativa/lírica se assume como evidentemente empenhada em fazer-se típica em relação às situações típicas da história presente. Ou seja, a voz dos poemas está, na quase totalidade deles, imersa em sua contingência cotidiana (e até autobiográfica): a de um intelectual de esquerda italiano. Extraem-se, então, dessa particularização radical, as possibilidades de acesso à superação de tal especificidade, no escopo de uma avaliação densa e problemática do sentido do progresso histórico que é realizada pelo eu-lírico intelectual.[2]


Há, portanto, em As cinzas de Gramsci, um centro que reordena os elementos díspares do mundo sugerindo-lhes certos liames. Este centro é a figura do poeta/pensador, que assume o legado do filósofo Antonio Gramsci e testa as possibilidades de pensamento e interpretação do mundo a partir de sua própria condição na vida nacional italiana do pós-guerra. A questão, aqui, portanto, é ainda aquela gramsciana, retrabalhada poeticamente: literatura e vida nacional; cultura e hegemonia. Pasolini usa como epígrafe de seu poema de 1949 “A descoberta de Marx”, a seguinte afirmação de Gorki: “Eu sei que os intelectuais em sua juventude sentem realmente inclinação física para o povo e creem que isso é amor. Mas não é amor: é mecânica inclinação à massa.” De alguma maneira, todos os poemas que estão reunidos em As cinzas de Gramsci tentam reler, a partir da experiência romana, essa afirmação, a qual se transforma em um verdadeiro mote histórico a ser glosado, partindo da discussão do lugar do intelectual na vida nacional segundo o pensamento de Antonio Gramsci. Como que a discutir aquela premissa do poema de 1949, a poesia de Pasolini assume de modo radical o seu caráter político, em sua condição dialética de discurso estético que reflete a realidade presente e de instrumento de intervenção na práxis histórica. Para isso, trata de recuperar o legado gramsciano e de discuti-lo de modo também radical, ou seja, nos termos de Marx: considerando que a raiz do homem é o próprio homem. Os poemas partem, pois, do cotidiano do poeta e da vida nacional italiana para tentar elevar-se a uma compreensão do humano comandada por uma paixão direcionada ao mundo, como se se tratasse mesmo de comentar reiteradamente aquela afirmação de Gorki recolhida no poema “A descoberta de Marx”. Assim, paixão e ideologia, razão e sentido, amor e política, combinam-se naquilo que seria o centro, ao mesmo tempo gramsciano e metagramsciano, da poesia de Pasolini, o seu “coração consciente”[3].

[1] Cf. LUKÁCS, G. “Introdução aos estudos estéticos de Marx e Engels”. In: MARX, K. e ENGELS, F. Cultura, arte e literatura. São Paulo: Expressão Popular, 2010. p.13. [2] A esse respeito, note-se como há um esforço do poeta em reconstruir literariamente a própria contingência geradora dos poemas, como em “Comício”, “Recit”, “O pranto da escavadeira”, e, é claro, “As cinzas de Gramsci”. [3] Em uma outra ocasião, tentei utilizar essa noção de “coração consciente” numa leitura crítica do poema título da coletânea. Cf. PILATI, A. “O coração consciente de Pasolini em ‘As cinzas de Gramsci’”. MOARA, v. 39, p. 151-1'73, 2013.

62 visualizações0 comentário