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  • Alexandre Pilati

Os possessos, romance de nosso tempo

Os possessos é uma narrativa curta, forte, intensa. Um raio de dissenso e de crítica num momento histórico sombrio, que nos deseja sonâmbulos, para aceitar com olhos conformados qualquer coisa a qualquer custo. Leonardo Almeida Filho é autor habilidoso, experiente, sensível, que convida a uma leitura que pede nosso comprometimento. O personagem central da obra, Luiz Carlos Mariano, é um achado: quando visto pela lente da terceira pessoa do discurso, aparece como um perfil muito humano, com as qualidades e defeitos que fazem de uma vida verdadeira o que lhe é distintivo. É assim que o protagonista de Os possessos nos abraça: como um espelho

de nós, inteiramente. Trata-se de uma construção refinada, cheia de nuances, problemática e sutil ao mesmo tempo.


O personagem Mariano, escritor, tradutor, é determinante para a eficácia estética da ficção de Os possessos. Entretanto, o alcance artístico da obra não se resume à sua figura, que funciona na verdade como um grande ímã que atrai outras vozes e perspectivas. Ao longo do texto, vemos intervenções literárias, como crônicas e traduções, que equilibram o ritmo ficcional do conjunto. Estas, pela sua qualidade e alcance, ajudam a definir ainda melhor os contornos da figura do protagonista, espécie de Quixote lúcido, desencantado, misantropo que não perde, contudo, a confiança num contato legítimo e libertador entre os sujeitos sociais através da literatura. Aqui temos o momento em que a narrativa literária formula o mundo, critica-o e reinventa-o, segundo “as leis da beleza”. Isso faz que o romance se realize plenamente como forma complexa de engajamento literário: não se trata de um grito, pois pretende-se como elaboração crítica da social.


Os possessos é um livro importante, atento às exigências desse tempo de eclosão do mal. Seu grande desafio é tratar de coisas do presente, ficcionalizando o real "a quente". E Leonardo Almeida Filho consegue enfrentar tal desafio, ao modo dos melhores autores de hoje, como, por exemplo, o Chico Buarque de Estorvo ou Essa gente. É um romance que nos embala e nos assombra, deixando em nossa cabeça e nosso coração ao menos duas perguntas: teremos forças para seguir? é a literatura uma dessas forças? Como todo bom mestre, Leonardo Almeida Filho não usa a ficção como veículo de uma resposta apressada aos dilemas do tempo; ao contrário, a sabedoria do seu livro está em dar forma de interrogação lúcida ao desespero difuso que amassa as esperanças do Brasil contemporâneo.

Alexandre Pilat

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