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  • Alexandre Pilati

O amor em suas ambiências e constâncias

Este belo texto da Profa. Vera Lucia de Oliveira (Univertsità degli Studi di Perugia) é o prefácio à coletânea Meu coração e outros poemas / Il mio cuore e altri poemi (Ed. Penalux, 2021):



* * *


“O coração tem razões que a própria razão desconhece.”

Pascal


Na “Apresentação”, com a qual se abre a antologia, seu autor afirma que “toda poesia é um desejo de diálogo”. Nada de mais verdadeiro, com efeito, mas o é duplamente se aplicado ao lirismo solidário de Alexandre Pilati. Já o havíamos evidenciado desde o livro Autofonia (2017), no artigo “La poesia partecipe di Alexandre Pilati”, publicado na revista italiana Fili d’aquilone. Afirmo ali que esse lirismo é “incômodo e crítico em suas indagações de forma e sentido, é lirismo que estimula a agir e não nos consola, embora não seja niilista, pois o poeta acredita no papel da poesia e da literatura como forças humanizadoras poderosas, capazes de revitalizar valores como solidariedade, empatia, sensibilidade, amor e respeito pelos seres e pela natureza em geral.”

Todos esses elementos estão presentes também em Meu coração e outros poemas. Comecemos pelo título, Meu coração, que retoma um tópos tradicional. Por que tal escolha? Tratando-se de poeta, professor e crítico sutil e refinado, o emprego de um termo usado e usurado nos remete à aspiração de reimergi-lo em seus sentidos autênticos e viscerais. Não é casual que o primeiro poema retome a palavra a partir das acepções mais prosaicas, onde “coração” é comparado a “espelunca” e “bijuteria” – “Meu coração // é uma espelunca (...) / meu coração: / bijuteria” –, para, a partir daí, nos poemas seguintes, efetuar uma espécie de resgate ou, se preferirmos, de ressignificação paradigmática do vocábulo “coração”, declinando-o em acepções mais complexas e abrangentes.

Trata-se, aqui, de um livro de amor (e sobre o amor), sentimento, como sabemos, entre os mais vitais e indefiníveis do ser humano, capaz, no entanto, de sobreviver à dor e de dar sentido até à morte:


“Mas diga sim, coração.

O amor sabe esperar não, vai devagar

rapidamente.

Pois tem a tarefa de negar a morte.

O amor como um tigre

abre os olhos do fim,

raspa a barba morta dos soldados,

que revivem dentro do púbere aniquilar.

(...)

E o amor é esta rosa, que chamamos lua.

Lembrança: resistência nos fantasmas

que dedilham os acentos da luz.”


Entre os tantos poemas exemplares, talvez a mais potente imagem do amor esteja na lírica “In a sentimental mood”, onde dois pés de ipês se tornam uma única árvore mesmo mantendo a própria individualidade: “O ipê da frente da minha casa / São dois. / Eles são assim: um”. Essa é a lógica do amor, que refuta a mera razão cartesiana, já que admite e convive com as contradições. É comovente, nesses versos, a metáfora dessas grandes árvores do cerrado, que resistem ao tempo e se sustentam altivas, sem que uma sofreie ou sufoque a outra. Temos aqui a própria representação do amor humano, que é aprendizado, constância, superação no dia a dia das dificuldades e do egotismo:


“O desejo de um ser o outro

De o da esquerda entrar no da direita

De serem os dois inseparáveis.

Apenas um – feito um óbvio

Núcleo irradiador de flores.

Assim se é (se deve ser)

quando se ama de verdade.

O ipê da frente da minha casa

São dois.

Eles são assim: um.”


O livro vai, assim, declinando os signos do amor e suas diferentes formas de manifestação, sua geometria, sua arquitetura, a sutil teia de anseios e emoções que envolvem esse sentimento e que vão da paixão física à amizade e ao amor como sentimento fraterno e solidário, que aproxima os seres humanos de diferentes países e continentes, mesmo num momento de pandemia, em que milhões de pessoas estão isoladas.

O amor é uma forma de agnição e de cognição, que se dá também pela contemplação da natureza, pela auscultação dos mistérios da vida, pelo respeito pelo mundo vegetal e animal, pela paixão pelos livros e pela arte, pelo apreço e admiração por grandes poetas e intelectuais, como Pasolini e Gramsci, explicitamente citados no livro.

Ao fazer isso, ao experienciar o amor em suas ambiências e constâncias, em nenhum momento esse lirismo omite a consciência de que o amor tem um outro lado, a sua negação, que resulta em aridez e na avidez com que se recusa a milhões de indivíduos a dignidade e o direito à vida. Eis que a poesia é, então, o antídoto contra a indiferença, porque nos leva para além das aparências e solicita a ação. E porque, nela, somos também o outro, o olhar do poeta colhe os seres deslocados e descartados por uma sociedade classista e injusta: “o país e nossa miséria / estão nos músculos / tristes do sorriso / arrasado de ramona”.

Poesia é, pois, para Alexandre Pilati, invenção, evocação, memória, abraço, compartilhamento e, como afirma:


“é bom saber que há gente

em forma de vulcão

que resgate da tragédia

a súmula santa

da vida que de nada necessita

a não ser sair por aí

sabendo que ela continua

nos tirando da lama

do breu

tomando seu gim

em nome da beleza”


Sim, é bom saber que há gente “em forma de vulcão”, que há poetas. E poesia.


* * *


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