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  • Alexandre Pilati

[escavar]

Atualizado: Fev 23


Luiz Aquila - "Pintura sobre tela"

O mito do domínio total sobre o que se escreve. A ideia senso comum de que artistas sabem exatamente o que querem dizer e que dominam plenamente os meios de dizê-lo. Nada mais enganoso e tributário da fascinação pelo poder individual do criador. O artista, quando cria, deixa registrado um momento de desamparo e de conexão profunda com ferramentas que ele não criou. Um momento em que ele assume que não se conhece tudo do objeto sobre o qual deseja escrever, que não é possível dominar plenamente os mecanismos que formam a poesia, porque as ferramentas que compõem o poético foram criadas coletivamente, ao longo da história. Contra a grandeza enganosa e fetichista do gênio, assumir os limites fascinantes que abrigam e exprimem o ser comum, muito menor que a história que deseja exprimir. O escritor diante da página em branco é o ser à medida do humano.

Perguntam sobre qual é a intenção do poeta ou do ficcionista com aquilo que escreve: “O que o autor quis dizer com isso?”. Essa pergunta pressupõe que o autor “saiba” o que quer dizer quando escreve. Quem faz essa pergunta desconsidera que o poeta também deseja descobrir alguma coisa com o que escreve. O escritor não está consciente de tudo que sabe sobre um determinado tema antes de escrever sobre ele. Produzir literatura é um ato de descoberta do mundo e de si.

Por isso, não se escreve um poema para revelar o que se sabe, o que se sente, mas para inquirir o mistério do que não se sabe; não se compõe um romance, um conto para expor um conhecimento ou impor uma ideologia. Escreve-se para dar vazão a um exprimir que é indissociável do investigar; escreve-se para poder unir o ato de narrar ao ato de buscar dar luz àquilo que ainda não está evidente para quem escreve. Só como prática poética de descoberta a literatura poderá ser fonte de descoberta também para o leitor. Fora isso, deriva-se para outros mundos; não literários.

Escrever, portanto, para desvendar o que se quer dizer. Escrever para interpretar a realidade, considerando que, na interação entre o que existe fora do Eu e a matéria subjetiva que elabora a realidade, existe dúvida, incerteza, instabilidade, desconhecimento e também, sobretudo, desejo de saber.

Escrever para descobrir o que se quer dizer. Escrever para procurar. Escrever é escavar.

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