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  • Foto do escritorAlexandre Pilati

Criação poética e crítica de poesia como sistema orgânico de pensamento

Criação poética e crítica de poesia são tarefas distintas que atendem a objetivos sociais e discursivos diferentes. Confundir um âmbito com o outro certamente gera prejuízos, inconsistências e fracassos. Entretanto, minha experiência de poeta e de crítico têm me provado, de modo cada vez mais intenso, que uma tarefa pode, saudavelmente, alimentar-se da outra, caso haja uma certa “coerência de princípios” que seja capaz de gerar um mesmo sistema de pensamento no qual escrever poesia e produzir relacionem-se organicamente.


Gostaria de apresentar hoje a vocês algumas linhas desta “coerência de princípios” que alimenta o meu modo de pensar sobre a realidade e sobre a linguagem poética. Ressalto, todavia, antes de qualquer coisa, que se trata de algo essencialmente válido para mim e que não necessariamente valerá o mesmo para outros poetas e críticos. Minha perspectiva não tem intenção de sobrepujar outras possíveis, pois isso seria ferir um princípio anterior a quaisquer outros quando se trata de entender a arte: o de que não que deve haver jamais um conceito apriorístico, superior ou excludente de poesia ou de crítica. Nesses terrenos, é a variedade de abordagens e concepções que faz vicejar, como demonstra a história, os melhores produtos cultivados pela humanidade.

Doravante, portanto, comentarei, breve e aleatoriamente, alguns desses princípios, experimentando evidenciar âmbitos organizadores de convergência entre o exercício da crítica e da criação poética. Começo pelo princípio mais elementar, que diz respeito ao que penso ser a poesia. Poesia para mim é uma forma específica de trabalho concreto em que a humanidade, como em outras formas de trabalho, pode realizar-se como gênero, isto é: uma atividade em que temos a possibilidade de nos conciliarmos com o gênero humano.


Essa premissa aponta para o vínculo verdadeiro com a vida que a arte proporciona, uma vez que nem a poesia nem outras formas de cultura são campos contrapostos às circunstâncias históricas. A poesia, para mim, não é um “paraíso alheio” que, de modo voluntarista, resiste e se opõe ao “mundo degradado”. A grande arte sempre foi a que captou, de maneira mais intensa e lúcida as contradições da realidade, escapando ao simplismo, ao maniqueísmo, ao misticismo, ao objetivismo e ao subjetivismo. A poesia que almejo e que me comove é sempre uma forma da sociedade, um reflexo sem original do existente, pois está atenta à dinâmica, às ações humanas e não à sua aparência. “Não é possível viver em uma sociedade e, ao mesmo tempo, estar livre dela”, como já dizia um velho revolucionário russo.


Portanto, concebo o poema como resultado de um trabalho de aproximação à realidade que preexiste ao gesto criador o qual, em primeiro lugar, gera uma autonomia, regulada por leis próprias e, em segundo lugar, consubstancia a vida concreta como ponto de partida e ponto de chegada da interpretação do real que a linguagem poética põe em marcha.


Grandes, a meu ver, são os poetas apaixonados pela vida cotidiana, pelo concreto real da poesia, pois a experiência do dia a dia é, para o artista, fundamento de sua arte e, para o crítico, a base a partir da qual a arte e a vida podem ser dialeticamente explicadas. Isso não quer dizer, em última análise, que a finalidade da arte seja criar uma reprodução fotográfica da realidade, nem a do crítico estabelecer uma explicação da arte através de uma ligação mecânica com a realidade. Muito ao contrário, trata-se de privilegiar, serenamente, em seu trabalho (crítico ou poético) a famosa paixão pelo concreto que anima uma grande tradição de críticos e de poetas.


Como estamos na Itália, parece adequado lembrar o exemplo clássico das discussões acerca do realismo artístico, que tantas vezes nos remete a um soneto de Michelangelo Buonarroti, e cujo primeiro quarteto sumariza perfeitamente a paixão pelo concreto e a arte como trabalho humano dirigido a transfigurar o que existe previamente à consciência do homem:


Non ha l’ottimo artista alcun concetto

c’un marmo solo in sé non circonscriva

col suo superchio, e solo a quello arriva

la man che ubbidisce all’intelletto. 

 

A citação sublinha as valências envolvidas na relação sujeito objeto que marca o trabalho artístico, sugerindo que a matéria concreta age sobre o artista, indicando-lhe suas potencialidades. O artista responde a estas sugestões, exercitando sua liberdade, e dialeticamente respeitando os contornos concretos de sua matéria. Deste ponto de vista, ao artista não cabe impor uma perspectiva deformando a realidade, nem tampouco se curvar à matéria. Num caso ou noutro, a arte geraria ilusões, sobrepondo o fetiche à antropomorfização. Por um lado, haveria a ilusão de autossuficiência do sujeito (típica de perspectivas idealistas); por outro haveria a hiper determinação da objetividade (típica de estéticas naturalistas). O trabalho artístico, da maneira como é mencionado no soneto de Michelangelo, exprime-se de modo desfetichizador à medida articula essas dimensões balanceando dialética e dinamicamente o que é objetivo e o que é subjetivo.


Como estamos falando de poesia e de crítica de poesia, nos caberia perguntar: qual é o bloco de mármore do poeta? Gosto de pensar que o mármore do poeta são as relações humanas. Mas não tomadas em abstrato, não como elas deveriam ser, não como está posto na aparência imediata do cotidiano, não apenas como eu gostaria que fossem. A poesia reconfigura, através da linguagem, as relações humanas, vinculadas às concretas condições objetivas; as mesmas de onde parte também o historicamente novo. A grande arte interpreta, dá forma, pois não expressa, nem defende; não professa nem corrige.


É nos termos de sua especificidade, a de um processo de transfiguração das relações humanas evidenciado pela linguagem, que a poesia é, também, como arte, espaço legítimo para a utopia. O mármore trabalhado pelo talento e o conhecimento do artista não é mais apenas mármore. É uma matéria nova, à altura das necessidades humanas, é uma resposta de liberdade humana à imposição da matéria e das contingências, é um esforço de elevação da natureza ao nível das “leis da beleza”. As relações humanas, na poesia, já não são aquelas em estado bruto, estão já processadas, interpretadas pelo gesto artístico, que as torna algo submetido ao formato da linguagem e como projeção da genericidade humana. Suplantar as suas circunstâncias, sem negá-las, falseá-las ou fetichizá-las é o sonho do poeta. Ele enxerga suas circunstâncias a partir do patamar da linguagem e provoca os leitores a também o fazerem. Daqui resulta, entre outras coisas, um efeito de alteração da relação dos sujeitos históricos com o seu tempo.


Daí, talvez, possamos vislumbrar uma função da poesia, em especial, e da arte, em geral, em nosso momento contemporâneo. Nesta altura de nosso caminhar histórico, as vivências, tornadas coisas, significam cada vez mais pela intangibilidade do efêmero e cada vez menos pela tangibilidade do duradouro. As experiências de nossa contingência são cada vez mais planificadas e velozes, desprovidas da lentidão necessária para a elaboração densa dos elementos dinâmicos que as compõem. Escrever ou ler um poema exige um outro pacto com o tempo e a crítica literária deveria apontar os caminhos para, prazerosamente, cumprir-se esse desígnio. O poeta precisa estar atento para que a construção do poema exprima os mais importantes elementos de densidade que compõem as vivências cotidianas. Só assim sua arte estará vinculada verdadeiramente às tendências reais da vida cotidiana, e, ao mesmo tempo, poderá projetar um ponto de vista amplificado, que aponta para um plano elevado em relação às contingências desta mesma cotidianidade.


É esse conjunto de princípios que procuro colocar em movimento quando escrevo um poema ou me aproximo de algum material poético com interesse crítico. Pouco importa se o resultado foi alcançado, pois a nós, trabalhadores intelectuais, deveria interessar mais a busca do que a conquista de qualquer resultado. Aliás, talvez em poesia não haja conquista, a não ser da condição de leitor, e ela não tem efetivamente uma métrica. Mas essa é uma outra dimensão que pela sua especificidade deve ser tratada em outro momento. Por agora valem essas breves considerações que, espero, possam oferecer um pouco de luz para a compreensão de meus modestos escritos de crítica ou poesia.


Muito obrigado!

Perugia, Itália, 10 de março de 2023

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