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  • Foto do escritorAlexandre Pilati

Alguns itinerários machadianos pelo cânone

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é, sem sombra de dúvida, o mais importante autor de literatura brasileira de todos os tempos. Uma das razões pelas quais é possível afirmar isso com tanta segurança é a maneira muito original escolhida pelo autor para elaborar a sua ficção de modo a responder às exigências do momento histórico do seu tempo, a absorver de modo crítico os elementos da tradição local que lhe antecedeu e a retrabalhar, de forma intensa e dialética, o cânone ocidental, em que hoje certamente Machado tem lugar cativo. No âmbito da ficção, os contos e os romances da chamada “segunda fase”, Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, bem como as crônicas e a crítica literária, atestam a importância universal do autor carioca de modo inconteste. Mestre periférico, Machado soube, talvez como nenhum escritor do novo mundo a seu tempo, em um só gesto intelectual, respeitar e afrontar a tradição ocidental, dando novas valências a seus elementos constitutivos e utilizando o material universal como ferramenta de sua gramática crítica, com potência metalinguística e social.


Mapear alguns itinerários da relação machadiana com o cânone ocidental é a tarefa a que se propõe Sonia Netto Salomão em seu Machado de Assis e o cânone ocidental - itinerários de leitura (2016), livro que se distingue por um exaustivo levantamento de pontos de diálogo entre o autor brasileiro e a tradição literária universal, destacando-se, em especial, a relação com a Itália. A obra foi agraciada com o prêmio Jabuti de crítica literária em 2017 e lançada na Itália em 2023 sob o título Machado de Assis e il canone occidentale - poetica, contesto, fortuna. Trata-se efetivamente de um belíssimo manancial de rotas de leitura da obra machadiana.


Todas essas rotas, no entanto, levam-nos a um elemento nevrálgico da concepção literária e do alcance estético da realização ficcional do autor: a relação com a literatura ocidental lida a contrapelo. Salvo engano, esse é o núcleo do argumento do famoso ensaio que dá, em 1873, “Notícia da atual literatura brasileira”. No texto, conhecido também com o emblema “instinto de nacionalidade”, Machado evidencia um ingrediente norteador de sua produção intelectual, interrogando sobre o que seria efetivamente construir uma literatura segundo um molde que pudesse responder de modo exigente à complexa, e moderna de nascença, constituição nacional do país em elaboração na sua época. A literatura brasileira, até meados do século XIX, esteve votada a importar e implantar modelos universais, através dos quais eram travados sentimentos de nativismo ou nacionalismo, mais ou menos difusos. A equação, cuja base material era a experiência periférica em relação aos centros do capitalismo mundial, mobilizava, muitas vezes, elementos postiços ou que padeciam de um “localismo de aparência”, quase nunca tendo estes se convertido no desenvolvimento efetivo de uma perspectiva poética e política que engendrasse uma forma potente de comentário literário ao universal segundo a verdade entranhada na caminhada de um país que nascia a partir de um processo colonial, baseado no modo de produção escravista e com organização política imperial.


Leia o texto na íntegra:


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